Crianças endividadas? O alerta silencioso do consumo precoce na era do Pix e dos jogos online

Por Maximino Brügger Perez

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04.05.2026 às 11h30m

Clariana Barcelos, especialista em educação financeira, alerta para o avanço do consumo digital entre crianças e defende que o problema não é o acesso ao dinheiro, mas a ausência de diálogo e orientação dentro de casa

 

O acesso cada vez mais facilitado ao dinheiro, agora a poucos cliques de distância via Pix, cartões digitais e compras dentro de jogos, está transformando a forma como crianças e adolescentes se relacionam com o consumo. O que antes dependia da mediação direta dos pais, hoje acontece de maneira rápida, silenciosa e, muitas vezes, invisível.

 

Nesse cenário, cresce um fenômeno ainda pouco discutido: o consumo precoce e desassistido, que pode levar crianças a desenvolver comportamentos impulsivos, dificuldade de lidar com frustrações e uma relação pouco consciente com o dinheiro.

 

Para a educadora financeira Clariana Barcelos, o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela vem sendo incorporada à rotina familiar. “A gente não está falando de crianças com dívidas formais, mas de um comportamento de consumo que começa muito cedo e sem orientação. Isso tem impacto direto na forma como esse indivíduo vai lidar com dinheiro na vida adulta”, explica.

 

Segundo a especialista, a lógica dos jogos online, que estimulam compras rápidas, recompensas imediatas e o uso de moedas virtuais, pode confundir a percepção de valor das crianças. “Quando o dinheiro deixa de ser físico, ele também deixa de ser concreto. Para uma criança, gastar em um clique não tem o mesmo peso de entregar uma nota ou ver o dinheiro acabar”, afirma.

 

Além disso, o uso do Pix e de cartões vinculados às contas dos pais reduz ainda mais a barreira entre desejo e consumo. “Hoje, a criança não precisa esperar, juntar ou escolher. Isso elimina etapas fundamentais do aprendizado financeiro, como planejamento, paciência e tomada de decisão”, diz Clariana.

 

A especialista também chama atenção para o papel das emoções nesse processo. Muitos pais, por falta de tempo ou por culpa, acabam cedendo com mais facilidade aos pedidos. O consumo vira uma forma de compensação emocional e isso é muito perigoso quando se torna um padrão”, alerta.

 

Abaixo, Clariana compartilha dicas práticas para ajudar aos pais na orientação do consumo digital:

 

1. Torne o dinheiro visível
Mesmo no digital, ajude a criança a entender o valor real das compras. Sempre traduza: “isso custa X reais”  e não apenas moedas do jogo.

 

2. Crie combinados claros
Defina regras para compras online, como limites de valor e frequência. O importante é que a criança saiba o que pode e o que não pode.

 

3. Evite o “sim automático”
Nem todo pedido precisa ser atendido. A frustração também faz parte do aprendizado financeiro.

 

4. Inclua a criança nas decisões
Mostre escolhas do dia a dia: “vamos gastar com isso ou guardar para aquilo?”. Isso desenvolve consciência e prioridade.

 

5. Fale sobre dinheiro sem tabu
Quanto mais natural for o tema dentro de casa, maior a chance de a criança desenvolver uma relação saudável com o consumo.

 

Para Clariana, o caminho não está na proibição, mas na construção de uma relação mais consciente com o dinheiro desde cedo. Isso inclui conversas abertas sobre consumo, a participação das crianças em decisões financeiras simples do dia a dia e a criação de combinados claros sobre gastos digitais.

 

A especialista compartilha abaixo os 5 erros mais comuns dos pais na educação financeira digital de seus filhos:

 

1. Achar que “é só um joguinho”
Compras dentro de jogos são consumo real e, muitas vezes, recorrente. Ignorar isso é subestimar o impacto financeiro.

 

2. Liberar o Pix sem supervisão
Facilidade sem orientação acelera o consumo impulsivo e impede o aprendizado sobre limites.

 

3. Não falar sobre dinheiro
O silêncio não protege, só faz com que a criança aprenda sobre consumo com o mercado.

 

4. Usar o consumo como recompensa ou compensação
Presentear para aliviar culpa ou emocionar pode criar uma associação perigosa entre dinheiro e afeto.

 

5. Evitar dizer “não”
Sem frustração, não existe aprendizado financeiro. O “não” também educa.

 

“Educação financeira não é  quanto a criança tem, mas como ela entende o dinheiro. Se a gente não ensina, o mercado ensina e normalmente da pior forma possível”, conclui.

 

Sobre Clariana Barcelos

 

Clariana Barcelos é pedagoga, administradora e empreendedora à frente do Poderoso Cofrinho, projeto referência nacional em educação financeira infantil que já impacta milhares de crianças e famílias no Brasil com livros, cursos, materiais didáticos, projetos para escolas e mentorias.

 

Autora de obras como Meu Poderoso Cofrinho, Minha Mesada Pode Mais e O Valor das Coisas, Clariana combina sua formação acadêmica e mais de 18 anos de experiência no mercado financeiro para tornar a educação sobre dinheiro acessível, prática e lúdica desde os primeiros anos de vida.

 

Além disso, ela atua como palestrante, colunista e influenciadora digital, defendendo uma abordagem transformadora e democrática para o desenvolvimento da inteligência financeira das novas gerações.

 

Sobre a Poderoso Cofrinho:

 

A Poderoso Cofrinho é uma empresa brasileira de educação financeira infantil que tem como missão formar crianças emocional e financeiramente mais conscientes, preparando-as para decisões mais saudáveis ao longo da vida. Fundada por Clariana Barcelos, a marca desenvolve livros, cursos, jogos, materiais pedagógicos e projetos educacionais para famílias, escolas e empresas, utilizando uma linguagem lúdica, acessível e alinhada ao desenvolvimento infantil.

 

Referência no tema no Brasil, a Poderoso Cofrinho atua para democratizar o diálogo sobre dinheiro desde a infância, contribuindo para uma relação mais equilibrada, ética e responsável com as finanças nas próximas gerações.