Psicologia explica o peso da cobrança sobre mulheres em posições de autoridade

Por Maximino Brügger Perez

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24.09.2026 às 17h02m

Juíza Federal e pesquisadora Alessandra Belfort Bueno analisa por que mulheres em cargos de a utoridade podem sentir maior pressão para demonstrar preparo, segurança e domínio — e como essa cobrança interfere na forma de exercer liderança

 

Ser competente deveria ser suficiente para ocupar uma posição de autoridade. Na prática, porém, mulheres que chegam a cargos de liderança ou que precisam tomar decisões importantes podem se deparar com uma cobrança que vai além dos resultados: precisam demonstrar, repetidamente, que são capazes de estar naquele lugar.

 

A questão aparece em diferentes ambientes profissionais. Mulheres podem ser avaliadas não apenas pelo que entregam, mas também pela maneira como falam, se posicionam, demonstram segurança, estabelecem limites e reagem diante de situações de conflito.

 

Quando demonstram firmeza, podem ser consideradas excessivamente duras. Quando adotam uma postura mais conciliadora, existe o risco de serem percebidas como menos assertivas. A dificuldade está justamente em encontrar um comportamento que seja reconhecido como adequado sem que a avaliação profissional seja atravessada por expectativas diferentes.

 

Para Alessandra Belfort Bueno, Juíza Federal há 20 anos e pesquisadora, compreender esse fenômeno passa também pela Psicologia e pela forma como a autoridade é percebida socialmente.

 

“Existe uma diferença entre exercer autoridade e precisar convencer o tempo todo de que se tem autoridade. Quando a pessoa sente que precisa provar constantemente que merece ocupar determinado espaço, isso pode gerar uma carga psicológica adicional”, explica.

 

A cobrança não aparece apenas no resultado

 

Em uma avaliação profissional, seria esperado que competência estivesse relacionada a conhecimento, capacidade técnica, qualidade das decisões e resultados. Para algumas mulheres, entretanto, a avaliação pode se estender para aspectos comportamentais.

 

A voz precisa transmitir segurança. A postura deve demonstrar confiança. A decisão precisa parecer firme, mas não autoritária. É necessário saber negociar, mas sem parecer insegura. Demonstrar ambição pode ser interpretado de maneira diferente de quando o mesmo comportamento parte de um homem.

 

Essa sobreposição de expectativas pode criar uma situação na qual a profissional não está apenas executando seu trabalho, mas também monitorando constantemente a forma como está sendo percebida. É aí que a cobrança pode ganhar uma dimensão psicológica.

 

O custo de estar sempre tentando demonstrar que sabe

 

Quando existe a sensação de que um erro será usado como evidência de incapacidade, a margem para experimentar, delegar ou admitir dúvidas pode diminuir. A profissional pode passar a revisar excessivamente decisões, preparar-se além do necessário para reuniões, evitar demonstrar vulnerabilidade ou sentir necessidade de dominar todos os detalhes antes de se posicionar.

Em determinadas situações, isso pode contribuir para um nível elevado de autocobrança.

 

“Quando a pessoa acredita que precisa estar impecável para ser reconhecida como competente, qualquer falha deixa de ser apenas uma falha. Ela pode ser interpretada internamente como uma ameaça à própria legitimidade naquele espaço”, afirma Alessandra.

 

Autoridade não é sinônimo de dureza

 

Outro ponto importante é a associação entre autoridade e uma postura permanentemente rígida. Profissionais em cargos de decisão precisam estabelecer limites, fazer escolhas difíceis e, eventualmente, contrariar interesses. Isso faz parte da função.

No entanto, exercer autoridade não significa eliminar a capacidade de escuta ou de diálogo.

 

Para a pesquisadora, uma liderança consistente não depende de demonstrar força o tempo inteiro.

 

“Autoridade não precisa ser performada o tempo todo. Uma pessoa pode ouvir, reconsiderar uma posição, reconhecer que precisa de mais informação e, ainda assim, continuar exercendo autoridade. Segurança não é ausência de dúvida; é capacidade de tomar decisões mesmo diante de situações complexas”, explica.

 

Por que o erro pode pesar de maneira diferente?_*

Errar faz parte de qualquer trajetória profissional. O problema é quando a falha individual passa a ser percebida como representativa de um grupo.

 

Uma mulher que ocupa uma posição tradicionalmente masculina pode sentir que seu desempenho está sendo observado não apenas como o desempenho dela, mas como uma espécie de representação sobre a capacidade de outras mulheres de ocupar aquele espaço.

 

Essa percepção pode aumentar a pressão por desempenho. Em profissões de alta responsabilidade, nas quais decisões são constantemente avaliadas por outras pessoas, o efeito pode ser ainda mais significativo.

 

O resultado pode ser uma profissional altamente preparada, mas que permanece em estado permanente de vigilância sobre o próprio comportamento.

 

A síndrome da impostora não explica tudo_

 

A chamada síndrome do impostor costuma aparecer nas discussões sobre mulheres altamente qualificadas que duvidam da própria competência mesmo diante de evidências objetivas de sucesso.

 

O conceito, porém, não deve ser utilizado para colocar toda a responsabilidade sobre a mulher. Nem toda insegurança profissional é um problema individual. O ambiente também influencia a forma como a competência é reconhecida.

 

Uma profissional pode ter dúvidas sobre si mesma, mas também pode estar inserida em um contexto no qual precisa, de fato, superar mais obstáculos para obter reconhecimento.

 

Por isso, a análise precisa considerar tanto aspectos individuais quanto culturais e organizacionais.

 

A mulher que precisa estar sempre preparada

 

Uma consequência possível dessa dinâmica é o excesso de preparação. A profissional estuda mais, revisa mais, antecipa mais cenários e procura reduzir ao mínimo a possibilidade de ser questionada.

 

Esse comportamento pode produzir resultados positivos no curto prazo. O problema aparece quando a preparação deixa de ser uma estratégia profissional e passa a funcionar como uma exigência interna permanente.

 

A pessoa já não pensa apenas “preciso estar preparada para esta situação”, mas “preciso estar preparada para não dar margem a nenhum questionamento”.

Essa diferença é pequena na aparência, mas importante do ponto de vista psicológico.

 

O que muda quando a competência deixa de precisar ser provada?

 

A construção de uma relação mais saudável com a autoridade passa por compreender que nenhuma pessoa será capaz de eliminar completamente a possibilidade de críticas, erros ou discordâncias.

Para mulheres em posições de liderança, isso pode significar abandonar a expectativa de que precisam ser tecnicamente impecáveis, emocionalmente equilibradas e permanentemente disponíveis para legitimar o próprio lugar.

 

Também significa reconhecer que pedir informação, ouvir uma opinião diferente ou mudar de ideia diante de novos dados não reduz necessariamente a autoridade.

Pelo contrário: em funções que exigem decisões complexas, a capacidade de revisar uma posição pode ser um sinal de responsabilidade.

 

A questão, portanto, não é deixar de buscar excelência. É não transformar a excelência em uma condição permanente para acreditar que se tem o direito de ocupar determinado espaço.

 

“Uma mulher não deveria precisar ser excepcional para que sua competência seja considerada legítima. Ela pode ser excelente, pode errar, pode aprender, pode discordar e pode estabelecer limites. O exercício da autoridade não depende de provar todos os dias que você merece estar onde está. Depende de reconhecer a responsabilidade que existe naquele lugar e exercê-la com consciência”, conclui Alessandra Belfort Bueno.

 

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